
Memória e Ciência: Cientistas cassados durante a ditadura militar recebem o título de pesquisador emérito da Fiocruz
A Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) concedeu o título de pesquisador emérito a nove cientistas da instituição que tiveram seus direitos políticos cassados em 1970 pelo regime militar. Dessa maneira, a solenidade póstuma prestou uma homenagem histórica aos alvos do episódio que ficou conhecido na historiografia nacional como o Massacre de Manguinhos. Nesse sentido, o evento integrou as celebrações do Dia Nacional da Saúde na sede da fundação, no Rio de Janeiro.
Reintegração Histórica e Defesa das Instituições Democráticas
A cerimônia reuniu autoridades e familiares nas escadarias do Castelo Mourisco, mesmo local onde os trabalhadores retornaram à fundação há quatro décadas na gestão do sanitarista Sérgio Arouca. Com efeito, o presidente da Fiocruz, Mario Moreira, enfatizou que os pesquisadores sofreram o afastamento sumário por força do Ato Institucional nº 5 (AI-5) e do AI-10. Portanto, o dirigente ressaltou que a homenagem busca preservar a memória científica e defender a democracia contra discursos negacionistas no país.
Os homenageados atuaram na linha de frente do desenvolvimento biológico e da formação de quadros acadêmicos no Brasil. Além disso, a instituição estendeu o reconhecimento ao médico Walter Oswaldo Cruz, filho do patrono da fundação, e à madre Maria de Fátima, cujo apoio na Universidade Santa Úrsula garantiu abrigo docente aos perseguidos políticos. Consequentemente, a honraria resgatou as trajetórias dos especialistas atingidos pela repressão estatal no século passado.
Trajetórias Interrompidas pelo Massacre de Manguinhos
O expurgo de 1970 desarticulou linhas de pesquisa promissoras em ecologia, bioquímica, farmacologia e parasitologia médica na instituição. Por exemplo, a cassação de nomes como Augusto Périssé, Fernando Braga Ubatuba e Haity Moussatché forçou o exílio de quadros estratégicos para universidades da Europa e da América Latina. Dessa forma, laboratórios inteiros perderam o financiamento e a liderança de seus mentores originais durante o regime de exceção.
A perseguição política atingiu também especialistas consagrados em zoologia e micologia humana. Por sua vez, cientistas como Domingos Arthur Machado Filho, Hugo de Souza Lopes, Masao Goto, Moacyr Vaz de Andrade, Sebastião José de Oliveira e Tito Arcoverde de Albuquerque Cavalcanti enfrentaram o banimento das salas de aula e dos serviços públicos federais. Assim sendo, muitos pesquisadores só conseguiram retomar as suas atribuições em Manguinhos com o processo de redemocratização e a Lei da Anistia.
Em suma, a concessão do título de pesquisador emérito repara simbolicamente as injustiças cometidas pelo Estado brasileiro contra o seu próprio patrimônio intelectual. Logo, a iniciativa da Fiocruz reafirma o compromisso permanente do conhecimento científico com as liberdades democráticas e com a saúde da população nacional.












