• 17 julho, 2026

Memória: Morre a demógrafa Elza Berquó, referência histórica nos estudos populacionais do Brasil

A demógrafa Elza Salvatori Berquó faleceu nesta quinta-feira (16), em São Paulo, aos 100 anos de idade. Professora, cientista e matemática em sua primeira formação, a pesquisadora atuou por décadas na compreensão do Brasil por meio da análise rigorosa de dados demográficos e censitários. Dessa maneira, a sua perda empobrece a ciência nacional. Nesse sentido, Elza destacou-se na articulação de alguns dos centros de pesquisa mais importantes do continente, fundamentais para entender a nossa urbanização entre as décadas de 1960 e 2000.

Defesa dos Direitos Humanos e Rigor Acadêmico

A cientista defendia o acesso aos métodos contraceptivos, ao aborto e aos direitos reprodutivos de forma consciente por toda a população brasileira. Portanto, a sua atuação associou o combate persistente à mortalidade infantil a uma postura política clara. Dessa forma, a fundadora da ONG Cepia Cidadania, Jacqueline Pitanguy, ressaltou que Elza conseguia trazer, ao mesmo tempo, o rigor acadêmico e o compromisso ético com os direitos humanos, uma combinação considerada rara no meio científico.

Natural de Guaxupé (MG), Elza estudou Matemática na Universidade Católica de Campinas e concluiu, com efeito, o mestrado em Estatística pela Universidade de São Paulo (USP) em 1949. No ano seguinte, a pesquisadora realizou uma especialização em Bioestatística na Columbia University, nos Estados Unidos. Consequentemente, o seu prestígio consolidou-se em 1965, quando analisou o desenvolvimento da população paulista a partir dos censos de 1940 e 1950, embora o regime militar a tenha aposentado compulsoriamente da USP em 1968.

Fundação do Cebrap e o Legado na Unicamp

A perseguição política não interrompeu, por outro lado, a sua produção intelectual e o seu desejo de entender a sociedade brasileira. Assim sendo, ela participou da fundação do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap) no ano seguinte, trabalhando ao lado de Fernando Henrique Cardoso, Octávio Ianni e José Arthur Giannotti. Além disso, Elza ajudou a fundar o Núcleo de Estudos de População da Unicamp (Nepo-Unicamp), instituição que passou a levar o seu nome oficial no ano de 2014.

As comemorações do seu centenário ocorreram em outubro do ano passado, centralizadas no próprio instituto da Unicamp em forma de justas homenagens ao seu legado. A atual coordenadora do Nepo, Gláucia Marcondes, lamentou a perda da cientista inspiradora, mas ponderou, por sua vez, que a comunidade deve celebrar as instituições que ela criou e as gerações de pesquisadores que ela formou ao longo de sua trajetória incrível.

Atuação Governamental e Reconhecimento Nacional

No ano de 1995, a pesquisadora expandiu sua atuação para o âmbito das políticas públicas ao fundar e presidir a Comissão Nacional de População e Desenvolvimento (CNPD). O atual presidente do órgão, Richarlls Martins, apontou que Elza sempre enxergou as pessoas por trás dos números, defendendo a democracia com base em evidências científicas. O acadêmico Eduardo Rios Neto acrescentou, em suma, que a comunidade acadêmica a considera legitimamente como a mãe da demografia brasileira. Logo, as suas contribuições na criação da ABEP e da CNPD garantem que o seu impacto na formulação de políticas sociais permaneça vivo para as próximas gerações.

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