• 19 março, 2026

Operações policiais na Maré deixaram 160 mortos em dez anos, aponta estudo

O projeto De Olho na Maré identificou que, entre 2016 e 2025, ocorreram 231 operações policiais no conjunto de favelas da Maré, no Rio de Janeiro.

Como resultado, essas ações deixaram 160 mortos e geraram 1.538 registros de violência e violação de direitos, incluindo ameaças, tortura e cárcere privado.

Além disso, os dados integram a 9ª edição do boletim Direito à Segurança Pública na Maré 2025, produzido pela Redes da Maré.

Violência impacta diretamente educação e saúde

Além das mortes, o levantamento mostra impactos diretos em serviços essenciais.

No campo da educação, por exemplo, as operações provocaram o fechamento de escolas públicas por 163 dias. Ou seja, esse período equivale à perda de aproximadamente um ano letivo para crianças e adolescentes da região.

Da mesma forma, na saúde, os efeitos também foram significativos. Em 2025, o fechamento de unidades por 14 dias interrompeu 7.866 atendimentos.

Dados ajudam a acionar instituições

Segundo a coordenadora Tainá Alvarenga, o monitoramento contínuo permite acionar instituições nacionais e internacionais.

Nesse sentido, os dados já subsidiaram ações junto ao Ministério Público Federal e ao UNICEF.

Além disso, em 2024, o MPF questionou o Ministério da Educação sobre medidas para compensar dias letivos perdidos. Como consequência, em 2025, o Conselho Nacional de Educação criou um fórum específico para acompanhar o cumprimento dos 200 dias letivos.

Saúde mental e vacinação também sofrem impacto

Paralelamente, estudos realizados pela Redes da Maré apontaram efeitos na saúde mental da população.

Além disso, em parceria com o UNICEF, a organização comprovou impactos na cobertura vacinal de crianças de zero a seis anos.

Embora a maioria das famílias seja favorável à vacinação, os índices caem durante dias de operação.

“A cobertura cai em dias de operação, e muitas vezes esse atraso não é recuperado”, explicou Tainá.

Violência segue padrão ao longo dos anos

De acordo com a diretora Eliana Sousa Silva, os dados indicam um padrão recorrente de violência.

Segundo ela, além das mortes, as operações interrompem serviços públicos essenciais e afetam diretamente o cotidiano dos moradores.

Consequentemente, direitos básicos deixam de ser garantidos de forma consistente.

Letalidade aumenta mesmo com menos operações

Outro dado relevante aparece na comparação entre os anos recentes.

Em 2025, ocorreram 16 operações, com 12 mortes. Já em 2024, houve 42 operações, mas com menor letalidade proporcional.

Ou seja, mesmo com menos ações, a violência aumentou. Dessa forma, cada operação passou a ter maior probabilidade de resultar em morte.

Falta de perícia reforça impunidade

Além disso, o levantamento aponta falhas graves na investigação dos casos.

Das 160 mortes registradas em dez anos, apenas 16 passaram por perícia e somente uma resultou em denúncia formal.

Segundo Tainá, o Estado falha ao não preservar cenas de crime e ao não garantir investigações adequadas.

Uso de helicópteros intensifica violência

Outro ponto crítico envolve o uso de helicópteros.

Em 2025, metade das operações utilizou esse recurso, e, em quatro casos, as aeronaves serviram como plataforma de tiro.

Como consequência, foram identificadas pelo menos 308 marcas de disparos nas ruas.

Além disso, em uma única operação, moradores relataram mais de 200 tiros disparados próximos a escolas e unidades de saúde.

Contexto estadual também preocupa

Esse cenário local acompanha uma tendência mais ampla.

Dados do Instituto de Segurança Pública apontam que, em 2025, o estado registrou 797 mortes por intervenção policial, um aumento de 13% em relação a 2024.

Ao mesmo tempo, também cresceu o número de policiais mortos, o que indica que o aumento da letalidade não trouxe mais segurança nem para a população nem para os agentes.

Dados podem orientar políticas públicas

Apesar do cenário preocupante, a Redes da Maré defende o uso dessas informações para melhorar políticas públicas.

Segundo a organização, o monitoramento territorial oferece dados em tempo real que podem ajudar a reduzir violações e aprimorar a atuação do Estado.

Expectativa de mudança permanece

Mesmo diante dos desafios, a coordenadora Tainá Alvarenga mantém uma visão de esperança.

Segundo ela, a mobilização social e a produção de dados pelas próprias comunidades podem impulsionar mudanças estruturais na segurança pública.

Documento será apresentado em congresso

O boletim será lançado oficialmente no dia 24 de março, durante o 3º Congresso Internacional Falando sobre Segurança Pública na Maré.

O evento reunirá especialistas e ativistas para discutir caminhos e soluções para a segurança pública.

Polícia Civil contesta metodologia

Por outro lado, a Secretaria de Polícia Civil do Rio de Janeiro afirmou que não reconhece a metodologia do estudo.

Além disso, destacou que atua com base em critérios técnicos, inteligência e planejamento operacional.

A pasta também informou que investiga rigorosamente todos os casos e reforçou que o confronto ocorre por ação de criminosos.

Já a Polícia Militar não respondeu aos questionamentos.

Organização atua há décadas na comunidade

Por fim, a Redes da Maré atua desde os anos 1980 e, atualmente, desenvolve projetos sociais que beneficiam milhares de moradores.

Dessa forma, a organização segue produzindo dados e evidências para fortalecer o debate público e a defesa de direitos.

Frase-Chave: Debate público e a defesa de direitos.

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