
Cinema e Cidadania: Documentário debate representatividade indígena no festival Bonito CineSur
Em seu mais novo longa documental, intitulado “Minha Terra Estrangeira”, o cineasta João Moreira Salles volta a usar as câmeras para observar o cenário político das eleições no Brasil. Dessa maneira, o filme posiciona-se como uma das principais atrações do festival Bonito CineSur, que ocorre até o próximo sábado no interior de Mato Grosso do Sul. Nesse sentido, a produção rompe com a linguagem tradicional dos documentários ao convidar cineastas indígenas para assinar a obra de forma coletiva.
Colaboração Técnica e Protagonismo Feminino
O projeto inicial focava estritamente na trajetória da jovem liderança Txai Suruí, mas a candidatura do pai dela a um cargo de deputado federal alterou a perspectiva da equipe. Portanto, Salles dividiu a direção do longa com Louise Botkay e com o Coletivo Lakapoy, acompanhando a rotina da família durante a campanha eleitoral de 2022. Com efeito, os diretores buscam provocar uma reflexão sobre a presença dos povos originários no Congresso Nacional.
A diretora Louise Botkay destacou que a presença indígena nas urnas avançou nos últimos anos. Por outro lado, ela reconhece que o número de parlamentares eleitos ainda continua extremamente baixo no país. Dessa forma, das 50 candidaturas registradas em 2022, apenas cinco indígenas conquistaram uma vaga na Câmara dos Deputados.
A obra reforça que a verdadeira representatividade extrapola o resultado do pleito eleitoral. Nesse contexto, a narrativa acompanha Txai Suruí liderando protestos em defesa do meio ambiente e discursando na Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas. Consequentemente, a nova geração de militantes assume o papel de porta-voz das próprias demandas em vez de aceitar a tutela de terceiros.
Construção Narrativa e Cosmovisão Circular do Tempo
A verdadeira parceria entre os cineastas manifestou-se com força durante o processo de montagem das imagens. Assim sendo, a visão do Coletivo Lakapoy prevaleceu na estruturação final da obra por apresentar maior potência política e cultural. Além disso, os cineastas indígenas questionaram a primeira versão do filme, que apresentava o encerramento do processo com uma vitória política tradicional.
A cultura ocidental costuma enxergar os acontecimentos a partir de uma linha do tempo estritamente linear. Todavia, o entendimento dos povos originários percebe a passagem dos anos como uma estrutura circular e dinâmica. Por isso, a equipe remontou o documentário em forma de espiral, intercalando avanços, repetições e recuos históricos.
Em suma, o documentário transforma a experiência cinematográfica ao aproximar a linguagem técnica da cosmovisão indígena. Afinal, o cruzamento de olhares entre os diretores expõe as barreiras enfrentadas pelas populações tradicionais e valoriza a resistência cultural no Brasil. Logo, a exibição no Bonito CineSur consolida a relevância do audiovisual para o fortalecimento da democracia e da preservação ambiental.












