• 16 março, 2026

Apenas 10% dos direitos autorais da música vão para mulheres, aponta estudo

Um estudorecente da União Brasileira de Compositores revelou que apenas 10% dos direitos autorais da indústria musical foram destinados a mulheres em 2025. Além disso, entre os 100 maiores arrecadadores de direitos autorais do país, somente 11 são mulheres, o que evidencia a persistente desigualdade de gênero no setor.

Os dados fazem parte da edição 2026 do relatório “Por Elas Que Fazem Música”, que analisa a participação feminina na indústria musical brasileira. Apesar de alguns avanços, o levantamento demonstra que a presença feminina ainda enfrenta grandes desafios, tanto em termos de reconhecimento quanto de remuneração.

Ainda assim, houve uma pequena evolução na posição das mulheres no ranking de arrecadação: a melhor colocação feminina passou do 21º para o 16º lugar, indicando um avanço gradual, embora ainda distante da igualdade.

Autorias concentram maior parte da renda feminina

De acordo com o estudo, as compositoras concentram a maior parte da renda obtida pelas mulheres no setor musical.

Ao todo, 73% do valor arrecadado por mulheres vêm de obras autorais. Em contrapartida, outras funções da cadeia musical ainda apresentam participação bastante reduzida.

Veja como se distribui a arrecadação feminina no setor:

  • Autoras/compositoras: 73%

  • Intérpretes: 23%

  • Musicistas executantes: 2%

  • Versionistas: 1%

  • Produtoras fonográficas: 1%

Portanto, embora as mulheres estejam presentes em diferentes funções na indústria musical, a remuneração continua altamente concentrada em poucas áreas de atuação.

Crescimento na participação feminina na produção musical

Por outro lado, o relatório também apontou crescimento significativo no número de obras registradas por mulheres.

Em 2025, por exemplo:

  • o número de fonogramas registrados por produtoras aumentou 13%

  • já o número de obras cadastradas por autoras e versionistas cresceu 12%

Dessa forma, o estudo indica que a presença feminina está se ampliando não apenas na interpretação musical, mas também nos bastidores da criação e da produção artística.

Mesmo assim, a própria UBC ressalta que a participação das mulheres ainda precisa ser fortalecida em várias áreas da indústria musical.

Número de mulheres associadas cresceu mais de 200%

Outro dado relevante do levantamento é o aumento expressivo no número de mulheres associadas à entidade.

Desde a primeira edição do estudo, em 2017, o total de mulheres filiadas à UBC cresceu 229%.

Segundo a organização, esse crescimento demonstra o aumento do interesse feminino por reconhecimento e atuação profissional na indústria musical.

Entretanto, esse avanço na participação ainda não se reflete proporcionalmente nos rendimentos.

Concentração regional ainda é grande

Além da desigualdade de gênero, o estudo também identificou forte concentração regional na presença feminina na música brasileira.

Atualmente, 88% das mulheres que atuam no setor musical estão concentradas em três regiões do país:

  • Sudeste: 60%

  • Nordeste: 17%

  • Sul: 11%

Já as regiões com menor participação são:

  • Centro-Oeste: 8%

  • Norte: 3%

Segundo a UBC, esses dados mostram a necessidade de políticas públicas e iniciativas de incentivo que ampliem o acesso de mulheres ao setor musical em todas as regiões do Brasil.

Assédio e discriminação ainda são realidade

Paralelamente ao relatório, a entidade também realizou uma pesquisa digital com mais de 280 mulheres da indústria musical, no primeiro bimestre de 2026, para avaliar situações de violência e assédio no ambiente profissional.

Os resultados revelaram um cenário preocupante.

Entre as participantes:

  • 65% relataram ter sofrido algum tipo de assédio profissional

Entre os tipos mais citados estão:

  • assédio sexual: 74%

  • assédio verbal: 63%

  • assédio moral: 56%

Além disso, 35% das entrevistadas disseram ter sofrido algum tipo de violência, sendo:

  • violência psicológica: 72%

  • toque físico sem consentimento: 58%

  • violência verbal: 38%

Outro problema recorrente é a discriminação profissional. Segundo o estudo:

  • 63% disseram ter sido ignoradas ou interrompidas em reuniões ou discussões profissionais

  • 59% ouviram comentários que questionavam sua competência

  • 57% afirmaram sofrer maior cobrança para provar capacidade

  • 52% tiveram créditos omitidos ou minimizados

Essas situações ocorrem principalmente em ambientes como:

  • reuniões de negócios (45%)

  • bastidores de shows (31%)

  • passagem de som (27%)

  • processos de contratação (26%)

Maternidade também impacta carreiras

Outro ponto analisado pela pesquisa foi o impacto da maternidade na carreira das profissionais da música.

Entre as mulheres com filhos entrevistadas, 60% afirmaram que a maternidade interferiu diretamente em suas carreiras.

Entre os principais fatores citados estão:

  • redução de convites para apresentações

  • menos oportunidades profissionais

  • diminuição de viagens e turnês

  • comentários negativos sobre a dedicação à maternidade

Rádio e shows concentram maior renda feminina

Em relação à arrecadação, os setores mais lucrativos para mulheres na música foram:

  • execução em rádio: 17%

  • shows e apresentações ao vivo: 17%

Logo depois aparece o streaming de música, com 11% da arrecadação feminina.

Por outro lado, o cinema representa apenas 0,5% da renda das mulheres no setor musical.

Além disso, o estudo mostrou que:

  • 55% das entrevistadas têm a música como principal fonte de renda

  • 29% atuam na área, mas possuem outra atividade como renda principal

Entre as profissionais consultadas:

  • 45% se identificam como profissionais do mercado musical

  • 25% como compositoras

  • 22% como intérpretes

  • 8% como musicistas executantes

Outro dado relevante é que 37% atuam na indústria musical há mais de 21 anos, demonstrando trajetória consolidada no setor.

Maior presença feminina na gestão da UBC

Desde 2023, a cantora e compositora Paula Lima ocupa a presidência da UBC, tornando-se a primeira mulher a assumir o cargo.

Além disso, a entidade passou por mudanças estruturais importantes.

Atualmente:

  • 57% dos cargos de liderança da UBC são ocupados por mulheres

  • todas as filiais da instituição são gerenciadas por mulheres

Segundo Paula Lima, a representatividade feminina dentro da instituição pode contribuir para transformar a indústria musical.

“Quando mais mulheres participam, criando, produzindo e ocupando espaços de decisão, ampliamos oportunidades e começamos a mudar dados historicamente desiguais.”

Transformação exige educação e incentivo

Para Fernanda Takai, a desigualdade de gênero na indústria musical reflete padrões históricos da sociedade brasileira.

“Em alguns setores somos vistas como força de trabalho. Em outros, somos filtradas por critérios muito masculinos.”

Apesar disso, ela acredita que o cenário pode melhorar gradualmente.

Segundo Takai, educação, incentivo e visibilidade são fundamentais para ampliar a participação feminina no setor musical.

Da mesma forma, Mila Ventura, gerente de comunicação e marketing da UBC e coordenadora do estudo, afirma que a representatividade tem papel decisivo nesse processo.

“Quando as mulheres enxergam outras ocupando espaços que antes eram masculinos, elas se sentem motivadas a fazer o mesmo.”

Por esse motivo, a entidade desenvolve iniciativas como o SongCamp Por Elas Que Fazem Música, que terá sua terceira edição ainda neste ano.

Agência Brasil.

Frase-Chave: A participação das mulheres.

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