
Crescimento da demanda por tecnologia climática abre novas oportunidades econômicas
Eventos climáticos extremos — como temporais, enxurradas, secas intensas e longos períodos de estiagem — já impactam diversas regiões do planeta. Ao mesmo tempo, porém, a necessidade de enfrentar esses desafios também tem impulsionado o desenvolvimento das chamadas tecnologias climáticas.
Nesse contexto, o setor, também conhecido como tecnologia verde ou ambientalmente sustentável, utiliza inovação e pesquisa para acelerar soluções capazes de mitigar os efeitos das mudanças climáticas. Além disso, essas tecnologias contribuem para aumentar a resiliência das cidades, da infraestrutura e dos sistemas produtivos, permitindo que a sociedade se adapte melhor às transformações ambientais.
Segundo Yago Freire, consultor de projetos do instituto de pesquisa Laclima, essas tecnologias possuem um papel estratégico na transição para modelos econômicos mais sustentáveis.
“São tecnologias que protegem o meio ambiente, são menos poluentes, utilizam recursos de forma sustentável e, principalmente, reduzem emissões e aumentam a resiliência”, explica.
Tecnologia verde deve movimentar trilhões na economia global
Na prática, o setor reúne dois dos eixos econômicos que mais devem crescer até 2030: tecnologia e economia verde.
De acordo com relatórios recentes do Fórum Econômico Mundial, a demanda por soluções ambientais pode gerar oportunidades de negócios verdes estimadas em US$ 10,1 trilhões em todo o mundo.
Além disso, quase metade desse valor — cerca de US$ 800 bilhões — poderá surgir na forma de economia de custos. Isso ocorrerá principalmente por meio de investimentos em:
eficiência energética
uso sustentável da água
economia circular de matérias-primas
Dessa forma, o desenvolvimento das tecnologias climáticas tende não apenas a reduzir impactos ambientais, mas também a gerar novos modelos de negócios e inovação econômica.
Programas internacionais impulsionam a expansão do setor
Segundo especialistas, parte dessas oportunidades será acelerada por acordos e programas internacionais voltados ao enfrentamento das mudanças climáticas.
Um exemplo importante é o Programa de Implementação de Tecnologia (TIP), criado a partir de decisões aprovadas durante a COP30, realizada em Belém, no Pará.
De acordo com Freire, muitas tecnologias já estão disponíveis e prontas para uso. Entretanto, o desafio atual consiste em ampliar sua aplicação.
“Embora a gente precise continuar desenvolvendo novas tecnologias, muitas soluções já estão disponíveis. Por isso, estamos saindo de uma fase de validação tecnológica para uma fase de implementação e expansão.”
Nesse sentido, o programa busca facilitar o acesso às tecnologias climáticas em países em desenvolvimento, fortalecendo sistemas nacionais de inovação e criando ambientes regulatórios mais favoráveis à inovação.
Brasil ainda recebe pequena parcela dos investimentos globais
Apesar do potencial existente, os dados mostram que a América Latina ainda recebe uma parcela muito pequena dos investimentos globais em tecnologia climática.
De acordo com a plataforma de inteligência de mercado Net Zero Insights, em 2024 a região recebeu US$ 743,3 milhões em investimentos, o que representa menos de 1% dos US$ 92 bilhões investidos globalmente no setor.
Mesmo assim, o Brasil demonstrou crescimento relevante no desenvolvimento dessas soluções. No mesmo ano, o país mobilizou R$ 2 bilhões em investimentos e gerou mais de 5 mil empregos diretos e indiretos, considerando apenas as chamadas climatechs — startups especializadas em tecnologias climáticas escaláveis.
País reúne condições favoráveis para liderar inovação climática
Na avaliação de Ana Himmelstein, diretora executiva do Fórum Brasileiro de Climatechs, o Brasil possui características estratégicas para se tornar referência mundial no setor.
Segundo ela, o país reúne uma combinação única de fatores favoráveis.
“É a tempestade perfeita que reúne uma biodiversidade muito vasta, centros de pesquisa de alto nível e um ecossistema empreendedor bastante maduro.”
Além disso, universidades e instituições científicas brasileiras figuram entre as mais relevantes da América Latina em diversas áreas relacionadas à inovação e sustentabilidade.
Desafios ainda limitam expansão do setor
Por outro lado, especialistas apontam que o país ainda enfrenta desafios importantes para ampliar sua presença no mercado global de tecnologias climáticas.
O relatório “Destravando o Potencial do Brasil para a Tecnologia Climática”, produzido pelo Fórum Brasileiro de Climatechs em 2025, indica que ainda faltam articulação institucional, financiamento e coordenação estratégica entre diferentes atores do setor.
Segundo Ana Himmelstein, o país possui as condições necessárias para crescer, porém precisa avançar em integração entre governos, empresas e investidores.
“Não faltam condições. O que falta é intencionalidade, orquestração e financiamento. Existe uma lacuna de investimentos, especialmente do capital internacional.”
Agronegócio e inovação impulsionam soluções climáticas
Outro ponto destacado pelos especialistas é o papel do agronegócio brasileiro no desenvolvimento de soluções tecnológicas voltadas à adaptação climática.
De acordo com Himmelstein, o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro também reflete investimentos em inovação tecnológica no setor agrícola.
“Quando observamos o agronegócio com mais atenção, percebemos o volume de investimentos em tecnologia voltada à adaptação climática. Muitas dessas soluções são desenvolvidas por climatechs.”
Assim, a inovação climática passa a atuar em diferentes setores da economia, ampliando seu impacto.
Setor organiza atuação em oito áreas estratégicas
Atualmente, o Fórum Brasileiro de Climatechs trabalha em parceria com o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social e com o Ministério de Pequenas e Médias Empresas para desenvolver modelos de financiamento capazes de ampliar o fluxo de investimentos no setor.
Além disso, a organização classificou as startups de tecnologia climática em oito áreas de atuação:
energia e biocombustíveis
indústria
agricultura e sistemas alimentares
florestas e uso do solo
água e saneamento
gestão de resíduos
finanças climáticas
logística e mobilidade
A partir dessa divisão, especialistas passaram a monitorar os sistemas regulatórios de cada setor, com o objetivo de alinhar políticas públicas e inovação tecnológica.
Transformação econômica e social
Para Zé Gustavo Favaro, dirigente do Fórum Brasileiro de Climatechs, as transformações climáticas devem provocar mudanças profundas na economia e no comportamento da sociedade.
“Estamos passando por uma transformação muito profunda da nossa civilização. Isso inevitavelmente vai gerar mudanças no comportamento, no mercado e na forma como produzimos e consumimos.”
Assim, a expansão das tecnologias climáticas tende a se tornar um dos principais motores de inovação e desenvolvimento sustentável nas próximas décadas.
Agência Brasil.












