• 16 março, 2026

Rochas de plástico chegam a ninhos de tartarugas em ilha brasileira e preocupam cientistas

Pesquisadores identificaram rochas formadas por plástico em ninhos de tartarugas na Ilha da Trindade, localizada no Atlântico Sul, a mais de mil quilômetros do litoral do Espírito Santo. A descoberta, portanto, reforça o alerta sobre a crescente poluição marinha e seus impactos nos ecossistemas.

Além disso, o estudo foi publicado recentemente na revista científica Marine Pollution Bulletin e indica que esses materiais podem, eventualmente, integrar-se aos processos geológicos do planeta, permanecendo no ambiente por milhares ou até milhões de anos.

O fenômeno foi identificado pela primeira vez no Brasil em 2019 pela geóloga Fernanda Avelar Santos, atualmente pesquisadora de pós-doutorado na Universidade Estadual Paulista.

Segundo a pesquisadora, trata-se de uma nova forma de poluição marinha.

“É um material geológico aparentemente comum, onde encontramos rochas vulcânicas, areia de praia e materiais biogênicos. Entretanto, tudo isso está cimentado por plástico.”

Assim, essas formações despertam preocupação não apenas pela quantidade de resíduos produzidos no mundo, mas também pela forma inadequada de descarte.

Como as rochas de plástico se formam

De acordo com as análises laboratoriais, as rochas identificadas contêm principalmente polietileno e polipropileno, dois dos polímeros mais utilizados pela indústria devido ao baixo custo e à grande versatilidade.

Nesse contexto, essas rochas surgem quando resíduos plásticos presentes no oceano são queimados ou expostos a altas temperaturas, o que provoca a fusão do material com sedimentos naturais.

Apesar de a presença humana na Ilha da Trindade ser bastante limitada — já que apenas pesquisadores e militares permanecem no local temporariamente — a região recebe grandes quantidades de lixo transportado pelo mar.

Isso ocorre, principalmente, devido à posição geográfica da ilha. Afinal, ela está situada no caminho de importantes rotas marítimas e também no sistema de circulação oceânica conhecido como Giro do Atlântico Sul, responsável por transportar resíduos entre a América do Sul e a África.

Além disso, análises realizadas pela UNESP também identificaram aditivos químicos e corantes nos fragmentos plásticos, substâncias que aumentam a durabilidade desses materiais no ambiente.

Segundo os pesquisadores, grande parte do plástico presente nas rochas parece ter origem em cordas marítimas de polietileno de alta densidade, amplamente utilizadas na navegação comercial e na pesca industrial.

Fragmentos chegam aos ninhos de tartarugas

Inicialmente, a área onde as rochas plásticas foram identificadas ocupava cerca de 12 metros quadrados. Entretanto, com o avanço da erosão, essa área foi reduzida em aproximadamente 45%.

Consequentemente, as rochas começaram a se fragmentar, gerando partículas classificadas como mesoplásticos e microplásticos, com tamanhos entre 1 milímetro e 65 milímetros.

Posteriormente, esses fragmentos passaram a ser transportados por ondas, ventos e marés, espalhando-se por diferentes regiões da ilha.

Enquanto alguns pedaços foram encontrados próximos ao mar — onde o contato com a água arredondou suas bordas — outros fragmentos foram descobertos no interior de ninhos de tartarugas, soterrados a até 10 centímetros de profundidade.

A ilha abriga um importante ponto de reprodução de tartaruga-verde, especialmente na chamada Praia das Tartarugas.

Além disso, toda a área é protegida como Monumento Natural (MONA), uma categoria oficial de unidade de conservação ambiental.

Possível registro geológico do impacto humano

Outro ponto investigado pelos cientistas é se essas formações plásticas poderão permanecer preservadas por tempo suficiente para se tornarem registros geológicos permanentes.

Caso isso ocorra, as rochas plásticas poderiam reforçar a hipótese da existência de uma nova época geológica da Terra conhecida como Antropoceno.

Esse conceito descreve um período em que as atividades humanas passaram a provocar mudanças profundas e irreversíveis nos sistemas naturais do planeta.

Entretanto, a classificação oficial ainda está em debate. A Comissão Internacional de Estratigrafia decidiu, em 2024, adiar por cerca de uma década a decisão final sobre o reconhecimento formal dessa nova era geológica.

Pesquisas investigam durabilidade das rochas plásticas

Desde 2025, Fernanda Avelar Santos participa de pesquisas na Western University, no Canadá, em colaboração com a geóloga Patricia Corcoran.

Nos laboratórios, os cientistas realizam experimentos que simulam condições ambientais extremas, incluindo exposição à radiação ultravioleta, calor intenso e umidade.

O objetivo dessas análises é entender se as rochas plásticas conseguem resistir ao tempo e permanecer preservadas em camadas profundas da Terra.

“Durante o último ano, simulamos o clima de ilhas oceânicas em amostras provenientes das ilhas de Trindade, Fernando de Noronha e do Havaí. Queremos compreender o que acontece com essas rochas ao longo do tempo”, explica a pesquisadora.

Assim, os estudos buscam compreender não apenas a origem dessas formações, mas também o impacto de longo prazo da poluição plástica na história geológica do planeta.

 Agência Brasil.

Frase-Chave: Hipótese da existência.

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