• 23 março, 2026

Morador de Juiz de Fora segue entre escombros um mês após tragédia e vítimas cobram resposta do poder público

Um mês após as chuvas fortes que devastaram Juiz de Fora e outras áreas da Zona da Mata Mineira, moradores ainda enfrentam um cenário de destruição, incerteza e abandono. Na comunidade Três Moinhos, uma das regiões mais afetadas, o morador Gilvan Leal Luzia, de 55 anos, passou a viver entre os escombros da própria casa, atingida pela lama durante os deslizamentos.

Além da perda material, as vítimas relatam falta de respostas mais rápidas sobre reassentamento, liberação das áreas e medidas emergenciais para reconstruir a rotina. Nesse contexto, a tragédia que matou 73 pessoas em Juiz de Fora e Ubá continua deixando marcas profundas na vida de quem sobreviveu.

Morador dorme ao lado da casa destruída pela lama

Na comunidade de Três Moinhos, Gilvan Leal Luzia passou os últimos dias e noites em um colchão colocado no que restou da garagem. De um lado, ficou a casa destruída. Do outro, parte do carro permaneceu soterrada. Para se proteger da chuva, ele improvisou uma cobertura com colchonete, pedaços de telha e outros destroços.

Segundo Gilvan, ele escapou por pouco da morte na noite de 23 de fevereiro, quando enchentes e deslizamentos atingiram a região.

“Eu ia entrar aqui para pegar uns documentos, aí a minha irmã falou para eu não fazer isso. Na hora que eu pensei em entrar, desmoronou tudo”, lembra Gilvan.

Sem alternativa, Gilvan permanece no local mesmo com risco

Desde então, a residência ficou inabitável. Ainda assim, sem ter para onde ir, Gilvan passou a dormir do lado de fora da casa, mesmo diante da previsão de novas chuvas.

“Se tiver de morrer, eu vou morrer. Eu nasci e fui criado aqui. Tem lugar para eu ir?”, questiona.

Além disso, ele afirma que nunca tinha visto uma tragédia dessa dimensão na região. Como se não bastasse, a situação agravou um quadro de saúde já delicado. Gilvan sofreu um infarto recentemente e diz que não pode fazer esforço físico, embora ainda dependa de trabalhos informais para sobreviver.

“Não posso pegar peso, mas, mesmo assim, estou trabalhando para sobreviver. Até agora não tive ajuda nenhuma. Eu não quero dinheiro. Só quero uma solução para morar”, diz Gilvan.

Reconstrução ainda depende de recursos que morador não tem

Sem definição sobre a liberação da área e sem informações concretas sobre eventual reassentamento, Gilvan tenta, sozinho, pensar em uma forma de reconstruir a vida. No entanto, esbarra na falta de recursos.

Mesmo assim, ele já projeta uma solução mínima para seguir no local.

“Vou limpar tudo e fazer um quarto, um banheiro e uma cozinha para mim”, afirma.

Dessa forma, a tentativa de recomeço ocorre sem garantias, sem apoio imediato e em meio a uma paisagem que ainda carrega sinais visíveis da tragédia.

Feirante relata isolamento, perda de renda e dificuldade para retomar rotina

A situação também atinge a feirante Kasciany Pozzi Bispo, de 36 anos, que ainda tenta reorganizar a própria rotina em meio ao isolamento da comunidade, à perda de renda e às incertezas sobre o futuro.

Ela vive da venda de cana-de-açúcar, atividade que ficou completamente paralisada nos últimos 30 dias. Segundo Kasciany, sem acesso adequado para veículos, o transporte da produção se tornou inviável.

“Muita cana jogada fora. É a única renda que a gente tem. Sem acesso para veículos, o transporte da produção se tornou impossível. O caminhão não consegue sair. A gente improvisa, pega carro emprestado e vai ao canavial cortar o que dá para tentar sobreviver”, relatou.

Casa interditada e crianças fora da escola agravam crise

Além do prejuízo financeiro, Kasciany também enfrenta problemas com moradia e educação. A casa onde vivia foi interditada, assim como a de outros vizinhos. Ao mesmo tempo, as crianças da comunidade também sofreram impacto direto da tragédia.

“Todos sem ir para a escola. Estão querendo colocar em colégio longe. É complicado”, lamenta.

Diante desse cenário, o plano mais imediato da família é esperar o barro secar, retirar a Kombi que ficou presa na lama e, depois, tentar retomar o trabalho em outro lugar.

Moradores cobram limpeza das ruas e ações urgentes

Enquanto tenta resolver questões burocráticas para acessar auxílios governamentais, Kasciany cobra ações emergenciais na comunidade. Segundo ela, os próprios moradores têm feito a limpeza das ruas, diante da ausência de resposta mais efetiva do poder público.

“Podiam, pelo menos, liberar uma máquina para limpar a rua, para o pessoal tirar o que sobrou de dentro de casa. Estamos ilhados em um bairro e ninguém faz nada. Os próprios moradores é que estão limpando a rua. Só pedimos um pouco de dignidade para o pessoal daqui”, pede Kasciany.

Assim, além da destruição provocada pela chuva, a sensação de abandono amplia o sofrimento de quem ainda tenta recuperar o básico para voltar a viver com dignidade.

Prefeitura anuncia auxílio e detalha situação das moradias

Em nota, a Prefeitura de Juiz de Fora informou que o auxílio calamidade municipal será creditado na próxima segunda-feira (23) nas contas do Cadastro Único (CadÚnico) das famílias afetadas.

Além disso, o município contabilizou:

  • 1.008 moradias completamente destruídas
  • 8 imóveis demolidos

A administração municipal também informou que encaminhou famílias desabrigadas, que estavam inicialmente em abrigos temporários, para hotéis da cidade.

Rede municipal retoma atividades, mas cinco escolas seguem sem aulas

Na área da educação, a prefeitura informou que a rede municipal já retomou as atividades em 101 unidades escolares. No entanto, cinco escolas ainda permanecem sem retorno às aulas:

  • EM Adenilde Bispo
  • EM Clotilde Hargreaves
  • EM Antônio Faustino
  • EM Santa Catarina Labouré
  • EM Murilo Mendes

Portanto, embora parte da estrutura pública já tenha retomado o funcionamento, a normalização ainda não chegou a todas as áreas afetadas.

Um mês depois, tragédia ainda impõe rotina de medo e incerteza

Em síntese, um mês após os deslizamentos e alagamentos que atingiram Juiz de Fora e deixaram 73 mortos em Juiz de Fora e Ubá, moradores como Gilvan e Kasciany ainda vivem cercados por lama, escombros, prejuízos financeiros e falta de respostas definitivas.

Enquanto o poder público anuncia medidas e auxílios, boa parte das vítimas segue tentando reconstruir a vida com o que restou. Por isso, mais do que ajuda emergencial, os relatos revelam a urgência de soluções concretas para moradia, mobilidade, trabalho e dignidade.

Frase-Chave: Acesso adequado para veículos.

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