• 06 abril, 2026

Autismo: mulheres lideram o cuidado e diagnóstico ocorre mais cedo, aponta pesquisa

A emoção tomou conta da advogada Anaiara Ribeiro, de 43 anos, ao ver o filho, João, de 18, chegar à faculdade, em Brasília. O jovem realizou o sonho de cursar jornalismo — e, além disso, a mãe decidiu acompanhá-lo, matriculando-se para viver a experiência ao seu lado.

Desde muito antes do diagnóstico de Transtorno do Espectro Autista (TEA), Anaiara já demonstrava uma dedicação intensa ao filho. No entanto, a confirmação veio apenas quando João tinha 8 anos, embora os sinais já fossem percebidos desde os 2.

Rotina de cuidado exige mudanças profundas

Diante das necessidades do filho, Anaiara passou a buscar atendimento com diferentes especialistas de forma contínua. Além disso, ela tomou uma decisão importante: deixou o emprego formal para atuar como autônoma, ajustando sua rotina para oferecer suporte integral.

Assim, passou a trabalhar em horários alternativos — noites, feriados e finais de semana — para conciliar a renda com os cuidados.

“Nada faria sentido se não fosse para ver a felicidade dele e o quanto ele evoluiu”, afirma.

Além dos desafios cotidianos, a mãe também enfrentou o divórcio, o que, por sua vez, intensificou ainda mais sua responsabilidade no cuidado.

Mulheres são maioria no cuidado, revela levantamento

Esse cenário não é isolado. Pelo contrário, reflete uma realidade nacional.

De acordo com o levantamento do Instituto Autismos, a maior parte das pessoas responsáveis por indivíduos com autismo no Brasil são mulheres.

O chamado Mapa do Autismo no Brasil reuniu respostas de 23.632 participantes em todo o país. Desse total:

  • 18.175 são responsáveis por pessoas autistas
  • 2.221 acumulam o papel de cuidadoras e também estão no espectro
  • 4.604 são pessoas autistas adultas

Segundo a presidente do instituto, Ana Carolina Steinkopf:

“A maior parte das cuidadoras são mulheres. E muitas delas estão fora do mercado de trabalho. Isso revela o impacto direto do cuidado na vida profissional.”

Diagnóstico mais precoce representa avanço

Por outro lado, o estudo traz uma notícia positiva. Atualmente, a média de idade para diagnóstico do TEA no Brasil gira em torno dos 4 anos — alinhando-se, portanto, aos padrões internacionais.

Ou seja, ao contrário da realidade vivida por Anaiara, o país começa a avançar na identificação precoce.

Segundo especialistas, quanto mais cedo ocorre o diagnóstico, maiores são as chances de intervenções eficazes e desenvolvimento adequado.

Custos elevados ainda são desafio para famílias

Apesar dos avanços, as famílias enfrentam obstáculos importantes. Em média, os gastos com terapias ultrapassam R$ 1 mil mensais.

Além disso:

  • Muitas famílias recorrem a planos de saúde
  • Regiões como Norte e Nordeste dependem mais do sistema público

Nesse contexto, o Sistema Único de Saúde desempenha papel fundamental no acesso ao tratamento.

Governo amplia rede de atendimento

Em resposta à demanda crescente, o governo federal anunciou investimento de R$ 83 milhões para ampliar o atendimento.

Entre as medidas previstas estão:

  • habilitação de 59 novos serviços
  • expansão de Centros Especializados em Reabilitação (CER)
  • oferta de transporte adaptado

De acordo com o ministro da Saúde, Alexandre Padilha:

“Estamos estruturando uma rede mais preparada, desde a identificação precoce até o atendimento especializado.”

Conscientização e direitos avançam, mas desafios persistem

Além disso, especialistas destacam que a conscientização sobre o autismo tem crescido ao longo dos anos. Ainda assim, reforçam a importância de ampliar pesquisas, formação de profissionais e políticas públicas.

Atualmente, o IBGE estima que cerca de 2,4 milhões de brasileiros estejam no espectro.

Com o diagnóstico precoce, as famílias conseguem acessar direitos importantes, como:

  • Benefício de Prestação Continuada (BPC)
  • inclusão educacional
  • acesso à saúde e assistência social

História de superação e reconstrução

Apesar dos desafios, a história de Anaiara também carrega superação. Após o divórcio, ela reconstruiu a vida familiar, casou-se novamente e teve uma filha.

Diferentemente de muitas mães, ela destaca que encontrou apoio:

“Sou uma exceção. Muitas mães seguem sozinhas. Eu tive a sorte de encontrar um parceiro que assumiu a paternidade do João.”

Um cuidado que transforma vidas

Por fim, a trajetória de Anaiara reforça uma realidade evidente: o cuidado com pessoas autistas ainda recai, majoritariamente, sobre as mulheres.

No entanto, ao mesmo tempo, histórias como a dela mostram que, com apoio, informação e políticas públicas eficazes, é possível transformar desafios em caminhos de desenvolvimento, inclusão e dignidade.

Frase-Chave: Histórias como a dela.

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