
Cultura: CineOP transforma Ouro Preto na capital nacional da memória audiovisual a partir desta quinta-feira
As ladeiras históricas de Ouro Preto voltam a receber as telas do cinema a partir desta quinta-feira (25). Dessa maneira, o público ocupará praças, museus e centros culturais para além de assistir a projeções, participando de uma reflexão urgente sobre o patrimônio histórico do país. Nesse sentido, a cidade mineira sedia a 21ª edição da CineOP – Mostra de Cinema de Ouro Preto até o dia 30 de junho, consolidando-se como o único evento brasileiro dedicado exclusivamente à preservação audiovisual.
Preservação como Linha de Frente Estratégica
A organização escolheu para este ano o tema “Um país existe nas imagens que preserva”, sintetizando a própria vocação da mostra. A diretora do evento, Raquel Hallak, afirma que a escolha dessa frase propõe uma discussão profunda sobre identidade e pertencimento na era digital. Portanto, o ato de salvaguardar arquivos vai muito além do simples armazenamento físico ou em nuvem. Dessa forma, preservar a memória audiovisual significa garantir o acesso público, o contexto histórico e a permanência das obras como parte viva da cultura nacional.
Durante os seis dias de programação, a cidade Patrimônio Mundial se transformará em uma imensa sala de exibição a céu aberto. O festival exibirá, por exemplo, 135 filmes entre longas, médias e curtas-metragens, distribuídos em 42 sessões totalmente gratuitas. Com efeito, as exibições ocuparão pontos emblemáticos como a Praça Tiradentes, o Centro de Artes e Convenções da UFOP e o Museu da Inconfidência.
A CineOP articula, além disso, debates e o tradicional Encontro Nacional de Arquivos e Acervos Audiovisuais Brasileiros, reunindo pesquisadores do setor. O evento dedica um de seus três eixos curatoriais inteiramente à educação. Consequentemente, o programa Cine-Expressão levará centenas de estudantes da rede pública às sessões, fornecendo materiais pedagógicos que estendem a experiência cultural para dentro das salas de aula.
Linguagem dos Arquivos e Homenagem a Helena Solberg
No cenário contemporâneo, os cineastas demonstram um interesse renovado pela ressignificação de imagens antigas. A Mostra Competitiva “Arquivos em Questão” reunirá, por sua vez, cinco longas-metragens inéditos que utilizam materiais históricos como dispositivos de criação e reinterpretação do presente. Entre os títulos selecionados estão “Apocalipse Segundo Baby”, “Universo Circular – Jocy de Oliveira” e “Notas sobre um Desterro”. Dessa forma, o documentário atual utiliza o passado para decifrar as urgências do mundo moderno.
A grande homenageada desta edição é a cineasta Helena Solberg, pioneira da produção audiovisual feminina na América Latina. A mostra celebrará sua trajetória com debates e uma retrospectiva detalhada de sua filmografia construída entre o Brasil e os Estados Unidos. Assim sendo, a sessão de abertura exibirá o clássico “A Entrevista” (1966), obra fundamental que reúne depoimentos de jovens mulheres sobre casamento e liberdade em plena ditadura militar.
A diretora relembra que descobriu sua verdadeira forma de expressão nas lentes das câmeras, embora sonhasse inicialmente com a literatura. A experiência de viver três décadas no exterior fortaleceu, de igual modo, sua conexão com a identidade latino-americana e a luta pelos direitos das mulheres.
Um Espaço Singular no Cenário Nacional
Ao completar 21 anos de existência, a CineOP reafirma sua singularidade no calendário de festivais do país. Em suma, enquanto a maioria dos eventos foca exclusivamente no lançamento comercial de novas obras, a mostra mineira prioriza os pilares estruturantes da memória, do patrimônio e da educação. Logo, o encontro presencial e a mediação crítica propostos por Ouro Preto funcionam como ferramentas de resistência cultural, garantindo que o passado do cinema continue moldando o futuro das novas gerações.












