• 21 maio, 2026

Direitos Humanos: Nove em cada dez moradores de favelas no Rio reprovam atual modelo de operação policial

Com o objetivo de mensurar o impacto real da violência institucionalizada, uma pesquisa inédita revelou que 92% dos moradores de grandes comunidades fluminenses rejeitam as operações policiais baseadas em confrontos armados. Dessa maneira, o levantamento “Por que moradores de favelas aprovam ou reprovam operações policiais com confronto armado?”, divulgado nesta semana, ouviu presencialmente 4.080 pessoas no Complexo do Alemão, Complexo da Penha, Maré e Rocinha. Nesse sentido, os dados desmistificam a ideia de que a população local apoia a atual política de segurança pública baseada na letalidade.

Brutalidade e Rejeição aos Excessos

A princípio, a pesquisa coordenada pela diretora fundadora da Redes da Maré, Eliana Sousa Silva, expõe que a concordância com a atuação policial não significa a aceitação da violência. Portanto, mesmo entre os 25% de entrevistados que declararam apoiar a realização de operações, a esmagadora maioria condena os métodos violentos adotados pelo Estado. Dessa forma, a percepção de ilegalidade e truculência consolida os seguintes indicadores no estudo:

  • Repúdio à Violência: Para 91% dos moradores, a polícia comete excessos e ilegalidades durante as incursões nas comunidades.

  • Modelo Falido: Apenas 20% daqueles que defendem a existência de operações apoiam o formato bélico atual.

  • Inaceitável: Cerca de 90% de todos os entrevistados consideram os abusos das forças de segurança intoleráveis.

Vale ressaltar ainda que a rotina dos moradores sofre impactos severos com a escalada dos confrontos, principalmente em relação ao direito de ir e vir. Consequentemente, a restrição de circulação desponta como o problema mais recorrente (51%), seguida pela violação de domicílios e pelo risco constante de balas perdidas nas janelas de casa.

O Impacto Social e o Recorte Racial

No que diz respeito ao cotidiano educacional, a violência armada paralisa serviços essenciais nas favelas cariocas. Dessa maneira, no Complexo da Maré — território que reúne 140 mil habitantes —, as escolas municipais chegam a perder de 30 a 40 dias de aula por ano em função dos tiroteios. Nesse contexto, a pesquisa joga luz sobre o racismo estrutural que molda essas operações, uma vez que a discordância com o modelo atual atinge o pico de 81% entre a população preta.

Além disso, a percepção de viés racial no planejamento das missões policiais é majoritária, sendo apontada por 61% dos entrevistados. Assim sendo, o estudo evidencia que a política de segurança pública acaba impondo uma condição de subalternidade a essa parcela da população, ameaçando constantemente o direito mais fundamental de qualquer cidadão: a própria vida.

O Medo e o Cenário Eleitoral

Quanto ao sentimento de segurança, o levantamento identificou uma grave distorção no papel protetor do Estado. Por conseguinte, 78% dos moradores declararam sentir medo da polícia durante as operações. Dessa forma, chama a atenção o fato de que, mesmo entre os defensores das ações estatais, o temor das forças policiais (59%) supera o medo dos grupos criminosos armados (53%), indicando que a população se vê encurralada entre duas frentes de violência.

Em um ano eleitoral como 2026, Eliana Sousa Silva adverte que o debate sobre segurança pública ganhará contornos ainda mais polarizados. Afinal, muitos candidatos costumam focar em promessas de destruição imediata de facções, ignorando por completo a integridade dos trabalhadores que residem nas favelas. Logo, a pesquisa serve como um alerta para que o eleitorado questione as promessas de campanha e exija propostas que preservem o morador de comunidade como um sujeito com pleno direito à cidade.

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