• 05 abril, 2026

Estudo aponta fatores estruturais para inflação de alimentos no Brasil

Um estudo divulgado nesta terça-feira (31) pela ACT Promoção da Saúde, em parceria com a Agência Bori, revela que a inflação de alimentos no Brasil vai muito além de fatores pontuais e deve ser compreendida como um fenômeno estrutural.

Além disso, o levantamento indica que os alimentos frescos têm encarecido mais do que os produtos ultraprocessados, o que impacta diretamente os hábitos de consumo da população.

Inflação vai além de fatores temporários

De acordo com o economista Valter Palmieri Junior, responsável pelo estudo, a alta dos alimentos não pode ser explicada apenas por fatores sazonais — como, por exemplo, a elevação do preço do tomate durante a entressafra.

Da mesma forma, ele destaca que também não se trata apenas de fatores conjunturais, como variações cambiais ou crises momentâneas.

Ou seja, segundo o pesquisador, trata-se de uma inflação estrutural, composta por pressões permanentes ligadas ao próprio modelo econômico do país.

“A inflação é estrutural, pois não decorre apenas de choques temporários”, afirma o estudo.

Alimentos sobem mais que a inflação geral

Ao longo de quase duas décadas, os dados mostram um cenário ainda mais preocupante.

  • Alimentação: +302,6%
  • Inflação geral (IPCA): +186,6%

Nesse sentido, entre 2006 e 2025, o custo da comida subiu 62% acima da inflação oficial, medida pelo IPCA.

Além disso, quando comparado a países como os Estados Unidos, o contraste é evidente: lá, os alimentos subiram apenas cerca de 1,5% acima da inflação geral no mesmo período.

Alimentos saudáveis perderam poder de compra

Outro ponto relevante é a mudança no poder de compra dos brasileiros.

Por um lado, alimentos in natura ficaram mais caros:

  • Frutas: queda de 31% no poder de compra
  • Hortaliças: queda de 26,6%

Por outro lado, produtos ultraprocessados se tornaram relativamente mais acessíveis:

  • Refrigerantes: +23,6%
  • Presunto: +69%
  • Mortadela: +87,2%

Consequentemente, esse cenário tende a direcionar o consumo para opções menos saudáveis.

Por que ultraprocessados ficam mais baratos?

Segundo o estudo, isso ocorre por alguns fatores importantes.

Primeiramente, esses produtos utilizam ingredientes industriais, com menor variação de preço.

Além disso, são baseados em poucos insumos principais — como milho, trigo, açúcar e óleo — que são transformados em diversos produtos.

Dessa forma, a produção se torna mais previsível e menos sujeita a oscilações.

Modelo agroexportador influencia preços

Outro fator estrutural apontado é o modelo agroexportador brasileiro.

Isso porque o Brasil é um dos maiores exportadores de alimentos do mundo. Assim, os produtores tendem a priorizar o mercado externo, onde recebem em dólar.

Evolução das exportações:

  • 2006: 24,2 milhões de toneladas
  • 2025: 209,4 milhões de toneladas

Enquanto isso, culturas essenciais para o consumo interno perderam espaço.

Por exemplo:

  • Área de alimentos básicos caiu de 10,22 milhões para 6,41 milhões de hectares

Custos de produção também pressionam preços

Além da exportação, o aumento no custo dos insumos agrícolas também contribui diretamente para a inflação.

Entre os principais aumentos:

  • Fertilizantes: +2.423%
  • Herbicidas: +1.870%
  • Colheitadeiras: +1.765%
  • Inseticidas: +1.301%

Nesse contexto, até pequenos produtores acabam impactados, já que precisam repassar esses custos ao consumidor final.

Concentração de mercado agrava cenário

Outro ponto crítico é a concentração da cadeia produtiva.

Por exemplo:

  • 4 empresas controlam 56% do mercado global de sementes
  • 4 empresas dominam 61% dos pesticidas
  • 4 empresas concentram 43% das máquinas agrícolas

Além disso, no setor alimentício, poucas marcas dominam segmentos inteiros, o que reduz a concorrência e pode manter preços elevados.

Existe ainda a “inflação invisível”

Além de tudo isso, o estudo aponta um fenômeno pouco percebido: a chamada inflação invisível.

Isso acontece quando o produto mantém o preço, mas perde qualidade — por exemplo:

  • menos cacau no chocolate
  • menos leite no sorvete

 Ou seja, o consumidor paga o mesmo, mas leva menos valor nutricional.

Caminhos possíveis para solução

Diante desse cenário, o estudo propõe algumas soluções estruturais:

  • fortalecimento da produção local
  • equilíbrio entre exportação e mercado interno
  • ampliação do acesso à terra
  • incentivo à produção de alimentos básicos
  • fortalecimento de instituições como a Companhia Nacional de Abastecimento

Conclusão: problema vai além da economia

Por fim, o estudo reforça que a inflação dos alimentos não é apenas uma questão econômica.

Na prática, ela reflete escolhas estruturais do país — incluindo modelo produtivo, políticas públicas e prioridades de desenvolvimento.

“O preço da comida expressa escolhas sobre o modelo de sociedade que se pretende construir”, conclui o autor.

Frase-Chave: Inflação de alimentos no Brasil.

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