• 29 abril, 2026

Memória e Poder: Maioria dos empresários que apoiou a ditadura descende de famílias escravistas

Com o objetivo de investigar as raízes da desigualdade no Brasil, o podcast Perdas e Danos revelou um dado alarmante: pelo menos dois em cada três empresários que financiaram a ditadura militar pertencem a linhagens de senhores de escravos. Dessa maneira, a pesquisa inédita cruzou dados da Comissão Nacional da Verdade (CNV) com árvores genealógicas documentadas. Nesse sentido, o levantamento demonstra que o núcleo duro da classe dominante brasileira mantém sua influência desde o período colonial, perpetuando uma lógica de exploração através dos séculos.

A Lógica da Extração e o Ataque aos Trabalhadores

A princípio, especialistas apontam que o modelo econômico da ditadura foi pautado pelo verbo “extrair”. Portanto, não se tratava apenas de retirar matéria-prima da terra, mas de extrair o máximo valor do corpo do trabalhador, muitas vezes ignorando direitos fundamentais. Dessa forma, a união entre o poder econômico e o regime de opressão teve como alvo principal a organização sindical.

Vale ressaltar ainda que a repressão foi imediata: logo após o golpe de 1964, milhares de trabalhadores foram presos. Consequentemente, o poder de compra do salário mínimo caiu pela metade em apenas dois anos, enquanto a concentração de renda nas mãos dos 5% mais ricos disparou. Assim sendo, a ditadura não apenas silenciou a oposição política, mas garantiu, por meio da força, a maximização do lucro empresarial às custas da desvalorização da mão de obra.

O Estudo de Caso da Família Bueno Vidigal

No que diz respeito à manutenção do prestígio das elites, a trajetória da família Bueno Vidigal é emblemática. Dessa maneira, os Vidigal controlavam gigantes como a Cobrasma e o Banco Mercantil de São Paulo, atuando em frentes que iam desde a indústria pesada até o sistema financeiro. Nesse contexto, a família destacou-se pelo apoio ativo ao regime, participando inclusive do financiamento da repressão:

  • Condições de Trabalho: Registros indicam que a Cobrasma mantinha ambientes análogos à escravidão, sem higiene básica ou segurança.

  • Repressão Sindical: Em 1968, a empresa convocou o Exército para reprimir a histórica greve de Osasco, resultando em 400 prisões.

  • Financiamento da Tortura: O Banco Mercantil foi um dos sócios financiadores da Operação Bandeirantes (Oban), o embrião dos centros de tortura DOI-CODI.

Além disso, a herança escravocrata da família é documentada em jornais do século XIX, que registram antepassados comprando pessoas escravizadas e dificultando alforrias. Assim, a riqueza acumulada no passado colonial serviu de base para a expansão industrial no século XX. Logo, os nomes de avenidas e praças que hoje homenageiam esses patriarcas servem como demarcações de um capital simbólico que silencia a memória das vítimas.

Imobilidade Social e Herança Política

Quanto à realidade socioeconômica do país, a permanência dessas famílias no poder explica a baixa mobilidade social no Brasil. Por conseguinte, dados da OCDE indicam que uma pessoa que nasce pobre no país pode levar até nove gerações para atingir a classe média. De acordo com os pesquisadores, essa imobilidade é fruto de um “elevador social quebrado”, onde o prestígio e o acesso aos bancos estatais — como o BNDES — permanecem restritos aos mesmos grupos históricos.

Em suma, entender o apoio empresarial à ditadura exige olhar para o passado escravista brasileiro. Afinal, as disputas políticas ocorrem também no campo da memória e dos nomes de ruas que celebram exploradores. Logo, a revisão dessas trajetórias é fundamental para compreender por que a violência e a desigualdade continuam sendo marcas tão profundas da sociedade brasileira contemporânea.

Destaques da Investigação:

  • Genealogia: 40 dos 62 empresários apoiadores da ditadura vêm de famílias de senhores de escravos.

  • Repressão Premiada: Empresários financiavam “caixinhas” para premiar militares pela captura de opositores.

  • Imobilidade: O Brasil, ao lado de Colômbia e África do Sul, lidera os índices globais de dificuldade de ascensão social.

Frase-Chave: Financiaram a ditadura.

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