• 28 maio, 2026

Saúde Coletiva: Dores menstruais afastam 4 em cada 10 estudantes das salas de aula no Brasil

Com o objetivo de combater o estigma e mensurar o impacto do ciclo biológico na educação, uma pesquisa inédita do Instituto Alana com o Instituto Equidade.info revelou dados alarmantes sobre a rotina escolar. Dessa maneira, o levantamento divulgado por ocasião do Dia Internacional da Dignidade Menstrual aponta que 37,1% das estudantes faltam às aulas mensalmente devido a dores latentes. Nesse sentido, o absenteísmo provocado por cólicas intensas deixa de ser um problema estritamente privado e passa a ser tratado como um desafio educacional coletivo.

Desigualdade Racial e a Invisibilidade da Dor

A princípio, o estudo revela uma profunda disparidade racial na forma como a dor menstrual é percebida e acolhida dentro das instituições de ensino. Portanto, embora as jovens brancas relatem dores mais intensas com maior frequência (37,5%), são as alunas negras as que mais perdem dias letivos. Dessa forma, as adolescentes negras chegam a faltar até 1,5 vez mais que as brancas, acumulando de dois a cinco dias de ausência por mês:

  • Absenteísmo Negro: Cerca de 14,5% das estudantes negras faltam de dois a cinco dias por mês por razões menstruais.

  • Absenteísmo Branco: Entre as estudantes brancas, esse índice de faltas prolongadas cai para 9,6%.

  • Barreira Cultural: Especialistas apontam que meninas negras tendem a normalizar o sofrimento por sofrerem a influência de um viés histórico que as associa, erroneamente, a uma maior resiliência física.

Vale ressaltar ainda que, segundo a líder da iniciativa no Instituto Alana, Sofia Reinach, essa normalização cultural subestima a gravidade do problema entre a população negra. Consequentemente, a especialista defende que os profissionais de educação e saúde desaprendam antigos preconceitos para que a escola atue ativamente como uma rede de proteção e acolhimento.

Assimetrias Regionais e Menarca Precoce

No que diz respeito à infraestrutura escolar, as regiões Norte e Centro-Oeste concentram os maiores gargalos do país. Dessa maneira, a falta de banheiros adequados e de produtos básicos de higiene menstrual desponta como motivo direto para o afastamento das alunas. Nesse contexto, enquanto no Norte o índice de faltas por falta de insumos atinge 18,9% das jovens, no Centro-Oeste o problema afeta expressivos 30,2% das entrevistadas.

Além disso, a pesquisa estabelece uma relação direta entre a menarca precoce (primeira menstruação) e a intensidade das cólicas futuras. Assim sendo, entre as meninas que menstruaram precocemente aos 10 anos de idade, 43% manifestam sofrer com dores severas na adolescência. Por conseguinte, o Instituto Alana recomenda a antecipação dos debates sobre saúde menstrual já para os anos iniciais do Ensino Fundamental, preparando as crianças antes que o ciclo se inicie.

Impacto na Docência e o Papel dos Meninos

Por outro lado, as escolas brasileiras sofrem um impacto duplo, pois as dores menstruais também reduzem a força de trabalho das educadoras. Dessa maneira, cerca de 12,1% das professoras faltaram ao serviço ao menos uma vez no último ano pelo mesmo motivo. Nesse sentido, o estudo observa que as profissionais adultas faltam menos que as alunas devido à pressão do ambiente de trabalho, submetendo-se a trabalhar mesmo sob forte desconforto físico.

Em suma, os dados comprovam que a falta de informação e o preconceito prejudicam o rendimento escolar e podem atrasar o diagnóstico de doenças graves, como a endometriose. Afinal, silenciar a dor na adolescência impede a investigação médica precoce de condições que afetam a fertilidade e a qualidade de vida na fase adulta. Logo, envolver também os estudantes do sexo masculino nessas conversas cotidianas é um passo fundamental para transformar as escolas em ambientes seguros, garantindo que a biologia não se transforme em desvantagem crônica na aprendizagem.

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