• 01 março, 2026

Unesco alerta: IA pode reduzir em até 24% as receitas da indústria musical

A expansão da inteligência artificial generativa pode provocar perdas significativas para criadores de música e audiovisual até 2028. Segundo o relatório Re|thinking Policies for Creativity, divulgado pela Unesco, o avanço da produção automatizada de conteúdos deve reduzir as receitas globais em até 24% no setor musical e 21% no audiovisual.

O estudo analisou dados de mais de 120 países. Além disso, a entidade alertou que a transformação digital ameaça não apenas a renda dos artistas, mas também a liberdade criativa e o financiamento público da cultura.

Atualmente, as receitas digitais representam 35% do rendimento dos criadores, enquanto em 2018 correspondiam a 17%. Ou seja, o modelo econômico das indústrias criativas passou por uma mudança estrutural acelerada. No entanto, esse crescimento veio acompanhado de maior precarização e aumento das violações de propriedade intelectual.

O diretor-geral da Unesco, Khaled El-Enany, destacou que o cenário exige respostas concretas. Para ele, governos precisam renovar e fortalecer políticas públicas que apoiem artistas em meio às mudanças tecnológicas.

Desigualdades e desequilíbrios globais

Do total de países que participaram da pesquisa, 85% afirmaram incluir as indústrias culturais em seus planos nacionais de desenvolvimento. Entretanto, apenas 56% estabeleceram metas culturais específicas. Assim, a Unesco identificou um descompasso entre compromissos formais e ações efetivas.

O comércio global de bens culturais atingiu US$ 254 bilhões em 2023. Por outro lado, embora 46% das exportações venham de países em desenvolvimento, esses países respondem por pouco mais de 20% do comércio de serviços culturais. Consequentemente, a digitalização amplia o desequilíbrio entre Norte e Sul.

O financiamento público direto para a cultura permanece abaixo de 0,6% do PIB global. Além disso, os investimentos apresentam tendência de queda, o que pode fragilizar ainda mais o setor.

Concentração de mercado e mobilidade restrita

A transformação digital ampliou o acesso a ferramentas e audiências. Porém, também intensificou desigualdades e instabilidade financeira. Apenas 48% dos países desenvolvem estatísticas para monitorar o consumo cultural digital. Dessa forma, muitos governos carecem de dados para formular políticas eficazes.

O relatório também aponta forte concentração do mercado em poucas plataformas de streaming. Enquanto isso, criadores menos conhecidos enfrentam dificuldades para ganhar visibilidade.

No campo da mobilidade artística, 96% dos países desenvolvidos apoiam a saída de seus artistas para o exterior. Em contrapartida, somente 38% facilitam a entrada de criadores de países em desenvolvimento. Assim sendo, a assimetria limita oportunidades internacionais.

Avanços e disparidades de gênero

A Unesco registrou aumento da liderança feminina em instituições culturais, que passou de 31% em 2017 para 46% em 2024. Contudo, a desigualdade persiste. Nos países desenvolvidos, mulheres ocupam 64% dos cargos de liderança cultural; nos países em desenvolvimento, apenas 30%.

Portanto, apesar dos avanços, o relatório reforça que muitos países ainda enxergam mulheres principalmente como consumidoras de cultura, e não como criadoras e gestoras.

Políticas e cooperação internacional

O relatório de 2026 integra a série de monitoramento da Convenção da Unesco de 2005 sobre diversidade de expressões culturais. Desde então, os países-membros adotaram mais de 8.100 políticas culturais.

Por meio do Fundo Internacional para a Diversidade Cultural, a Unesco apoiou 164 projetos em 76 países do sul global. Em síntese, a organização defende que, diante do avanço da IA, governos reforcem mecanismos de proteção, financiamento e inclusão digital para garantir sustentabilidade às indústrias criativas.

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