• 27 maio, 2026

Desafio na Educação: Metade dos estudantes não reconhece debate antirracista nas escolas, aponta estudo

Com o objetivo de avaliar a real efetividade das diretrizes de igualdade racial nas salas de aula, um levantamento inédito divulgado nesta semana revelou dados preocupantes sobre a percepção dos jovens brasileiros. Dessa maneira, aproximadamente 50% dos estudantes do 9º ano do ensino fundamental e do 3º ano do ensino médio declaram não notar debates sobre desigualdades raciais na escola. Nesse sentido, o diagnóstico aponta que, mesmo após duas décadas da criação das leis 10.639/2003 e 11.645/2008, a educação antirracista ainda enfrenta forte resistência para se consolidar no cotidiano escolar.

O Descompasso entre Professores e Alunos

A princípio, a pesquisa — realizada em parceria pelo Cebrap, Instituto Alana e Geledés a partir de dados do Saeb — trouxe à tona um nítido descompasso pedagógico. Portanto, enquanto a grande maioria dos docentes afirma abordar a temática étnico-racial com frequência, os estudantes não compartilham da mesma percepção. Dessa forma, os números evidenciam a distância entre o planejamento e a prática:

  • Visão dos Docentes: No ensino fundamental, 81,6% dos professores afirmam tratar das desigualdades raciais “sempre” ou “muitas vezes”. No ensino médio, esse índice é de 71,6%.

  • Percepção dos Alunos: Em contrapartida, menos da metade das turmas (46,6% no fundamental e 46,8% no médio) reconhece que a maioria de seus professores aborda o tema.

  • Rede Privada: A ausência do debate é ainda mais acentuada nas escolas particulares, onde 60,8% dos jovens afirmam não notar a presença da pauta racial no currículo.

Vale ressaltar ainda que, segundo a pesquisadora Eliane Firmino (Cebrap), essa disparidade serve como o termômetro real da efetividade da política pública. Consequentemente, os dados sugerem que a aplicação da lei ocorre de forma heterogênea e, muitas vezes, fica restrita a abordagens superficiais ou comemorações episódicas, como o Dia da Consciência Negra.

Falta de Universalização e Transdisciplinaridade

No que diz respeito à aplicação prática da legislação, a socióloga Flávia Rios (USP/Cebrap) pondera que as iniciativas têm saído do papel, porém de maneira bastante irregular. Dessa maneira, o avanço do ensino da história e cultura africana e indígena ainda depende do esforço isolado de algumas secretarias ou de projetos pontuais de professores. Nesse contexto, o sistema educacional brasileiro falhou em universalizar a lei e em conferir a ela uma consistência transdisciplinar, que atravesse todas as matérias e anos letivos.

Além disso, os especialistas alertam que a educação antirracista não deve focar apenas nos alunos negros, mas sim funcionar como uma formação cidadã para toda a sociedade. Assim sendo, a ausência desse debate nas escolas particulares, por exemplo, gera ambientes propícios para episódios de discriminação, uma vez que essas instituições historicamente sofrem menos cobrança e fiscalização quanto ao cumprimento das metas curriculares.

A Necessidade de Fiscalização e Mudança Estrutural

Por conseguinte, coordenadoras de direitos humanos, como Suelaine Carneiro (Instituto Geledés), defendem que o país necessita urgentemente de monitoramento contínuo e de ações coordenadas. Com efeito, não basta apenas distribuir apostilas; torna-se obrigatório investir na formação continuada de equipes gestoras e no engajamento de professores não negros com a pauta. Dessa forma, a recomendação central do estudo propõe a ampliação da diversidade racial no próprio corpo docente, permitindo que os estudantes vejam a representatividade no dia a dia.

Em suma, os relatos de mães e estudantes confirmam que o cenário atual é melhor do que o de décadas passadas, mas os desafios estruturais permanecem desafiadores. Afinal, transformar mentalidades e combater o racismo estrutural exige que o conteúdo histórico seja ensinado com profundidade e intencionalidade. Logo, a mobilização conjunta entre governos, escolas e famílias apresenta-se como o único caminho viável para que as futuras gerações desfrutem de um ambiente escolar plenamente seguro, diverso e igualitário.

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