• 30 março, 2026

Crianças de comunidade quilombola enfrentam escuridão e longas distâncias para chegar à escola em Goiás

Ainda de madrugada, quando o som do Córrego da Inês fica mais evidente a poucos metros de casa, Aleandro, de 6 anos, acorda animado para ir à escola. Em seguida, separa o uniforme e se junta aos irmãos mais velhos, Alecssandro, de 7, e Tawane, de 15. Juntos, eles percorrem, durante cerca de 50 minutos, uma subida de quase dois quilômetros por uma estrada estreita, de terra, pedras e cascalho, em meio ao Cerrado e à escuridão.

Tudo isso acontece para que consigam chegar a tempo de pegar uma kombi, às 6h10, rumo às escolas municipais no centro de Santo Antônio do Descoberto (GO), a aproximadamente 15 quilômetros dali. Ainda assim, apesar das dificuldades atuais, a família reconhece que a situação já foi ainda mais difícil no passado.

Caminho duro, mas cheio de esperança

Os pais das crianças, os agricultores Roberto Braga, de 42 anos, e Mayara Soares, de 35, acompanham com orgulho o esforço dos filhos. Ao mesmo tempo, carregam na memória a frustração de terem abandonado os estudos justamente por falta de apoio e transporte.

Além disso, o avô das crianças, Joaquim Moreira, vive com a família e observa a rotina com emoção. Aos 87 anos, ele mora na mesma casa onde nasceu e é considerado o morador mais velho da comunidade quilombola de Antinha de Baixo. Por isso, ao ver os netos saindo cedo para estudar, alimenta a esperança de que eles tenham oportunidades que sua geração nunca teve.

Comunidade vive momento decisivo

No ano passado, Seu Joaquim recebeu, em Brasília, o certificado de autorreconhecimento de comunidade remanescente de quilombo. Desde então, o documento passou a representar um marco importante para as cerca de 400 famílias que vivem no território.

Essa conquista, por sua vez, veio após uma longa disputa judicial, marcada por pressões de fazendeiros e grileiros que reivindicavam a posse da área. Inclusive, pelo menos três casas de quilombolas chegaram a ser demolidas após decisões desfavoráveis. Posteriormente, uma decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) suspendeu o despejo.

Além disso, segundo os moradores, homens armados vinham ameaçando a comunidade com frequência, o que agravou ainda mais o clima de insegurança.

Incra avança em estudos para demarcação

Nos últimos dias, profissionais do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), entre eles antropólogos, estiveram na comunidade para dar andamento ao Relatório Técnico de Identificação e Delimitação (RTID).

Esse levantamento reúne estudos geográficos, históricos e etnográficos. Dessa forma, aproxima a comunidade da futura demarcação e titulação do território. Ao mesmo tempo, a certificação já fortalece a busca por políticas públicas urgentes, como iluminação, transporte, escola e posto de saúde.

Escola ainda exige sacrifício diário

Apesar da esperança, a rotina das crianças continua pesada. Mayara resume a situação com franqueza:

“Ainda é muito complicado para eles irem estudar.”

O pai, Roberto, reforça o mesmo problema e aponta uma necessidade básica:

“Hoje é muito escuro.”

Ainda assim, para Aleandro e Alecssandro, a escola vale o esforço. Além de aprender as letras, eles veem o colégio como espaço de convivência e amizade. Por isso, seguem caminhando todos os dias, mesmo antes do amanhecer.

Aleandro, por exemplo, já mostra com orgulho o caderno cheio de sílabas copiadas do quadro. A família espera que, ainda neste ano, ele e o irmão aprendam a ler.

Ida é difícil, volta também

As aulas terminam às 11h, mas o retorno para casa só acontece depois das 13h30. Além disso, ninguém da comunidade consegue estudar no turno da tarde, justamente porque não existe transporte compatível com esse horário.

Quando chove forte, a situação piora ainda mais. Nessas ocasiões, o deslocamento se torna praticamente inviável.

Adolescentes enfrentam obstáculos ainda maiores

Tawane, de 15 anos, já conhece bem esses desafios. Há três anos, para conseguir chegar até o transporte escolar, ela precisava atravessar um córrego. Como consequência, chegava ao colégio com a roupa molhada.

Depois de reclamações feitas pela mãe, a prefeitura disponibilizou um veículo extra para uma parte da comunidade. Ainda assim, a experiência deixou marcas.

Hoje, Tawane gosta especialmente de português e ciências e sonha cursar veterinária no futuro. Se conseguir, será a primeira pessoa da família a chegar ao ensino superior.

Outras crianças vivem a mesma rotina

Do outro lado do rio, Débora, de 6 anos, também madruga para estudar. Enquanto aprende as primeiras sílabas, ela encontra energia, sobretudo, nas brincadeiras do recreio.

Além disso, gosta de desenhar flores no caderno, inspirada na paisagem ao redor da casa. Miguel, primo dela, também de 6 anos, divide o entusiasmo entre os estudos e o futebol com os amigos.

Atualmente, três veículos transportam ao menos 40 estudantes da comunidade. Mesmo assim, as crianças seguem expostas a uma rotina cansativa e desgastante.

Associação se organiza para lutar por direitos

Enquanto isso, a comunidade começa a se estruturar politicamente. Willianderson Moreira, de 27 anos, irmão de Débora, preside a associação das famílias do quilombo. A entidade obteve registro oficial nesta semana e já reúne 120 pessoas.

Segundo ele, a expectativa é que, com a futura desapropriação e titulação, a associação administre o território. No entanto, até lá, a comunidade segue organizada para cobrar melhorias.

Entre as prioridades listadas pelos moradores estão:

  • creche
  • escola
  • posto de saúde
  • iluminação
  • estrada de qualidade
  • transporte
  • incentivo à agricultura familiar
  • segurança

Além disso, a comunidade já protocolou ofício na prefeitura cobrando providências.

Falta de saúde agrava vulnerabilidade

Outro problema grave é o acesso à saúde. Sem posto médico e sem transporte público, qualquer febre ou emergência vira motivo de pânico.

Roberto relata que já precisou sair de madrugada em busca de ajuda para os filhos e para o pai. Como os agentes de saúde não chegam às casas da comunidade, tudo depende da solidariedade de quem tem carro.

O hospital mais próximo fica a 20 quilômetros dali. Por isso, como resume Willianderson:

“Quem não tem carro e não consegue ajuda fica só rezando mesmo.”

Mudanças ambientais também preocupam

Além da falta de estrutura, os moradores relatam transformações na paisagem e na produção local. O Córrego da Inês, que antes parecia um rio, hoje está mais seco. Segundo Mayara, até a areia, que seu pai retirava para vender, desapareceu.

Roberto também lembra de um Cerrado mais vivo, com muito mais frutas nativas, como fruta-de-ema, bacupari e gabiroba. Hoje, segundo ele, restou basicamente o caju do cerrado.

De acordo com a comunidade, parte desses impactos pode ter relação com o uso de agrotóxicos por fazendeiros e grileiros instalados na região.

Mesmo assim, o vínculo com a terra permanece

Apesar de tudo, as crianças não se imaginam longe dali. Débora, por exemplo, fala com alegria da plantação de milho perto de casa.

“É muito bom morar aqui. Tem várias coisas pra fazer. Quando o milho está no ponto, dá pra fazer pamonha”, diz, sorrindo.

Adultos também tentam retomar os estudos

As dificuldades educacionais, porém, não afetam apenas os mais novos. Rejane Moreira, mãe de Débora e Willianderson, estudou apenas até a quarta série. Já Ana Clity Vieira, de 57 anos, luta para concluir os estudos por meio da Educação de Jovens e Adultos (EJA).

No entanto, ela não conseguiu sequer fazer as provas para avançar da sétima série, justamente porque não teve transporte até o centro da cidade.

Quando consegue ir estudar, precisa dormir na casa de colegas, já que não há como voltar para casa no mesmo dia. Ainda assim, segue resistindo.

Resistência como projeto de vida

No ano passado, quando fazendeiros conseguiram a desapropriação de parte da área, Ana foi a primeira a ser expulsa. Refugiou-se na cidade, pagando aluguel e acumulando dívidas. Depois da decisão do STF, conseguiu voltar.

Hoje, sobrevive vendendo o que planta, criando galinhas e produzindo itens como açafrão e azeite de mamona. Com esse trabalho, alimenta dois sonhos: abrir uma loja e escrever um livro sobre a própria trajetória.

O título já está escolhido: Resistência.

Futuro com dignidade

Perto dali, Jéssica Gonçalves, mãe do pequeno Henrique, de oito meses — o mais novo integrante da comunidade —, sonha com um futuro diferente para o filho.

Como não há creche próxima, ela não consegue exercer outra atividade além do cuidado com o bebê. Mesmo assim, mantém a esperança de que Henrique cresça em um território demarcado, seguro e com acesso a direitos que sua geração não teve.

Ao mesmo tempo, faz questão de que ele conheça a história da comunidade e das lutas travadas até aqui.

Poder público ainda não respondeu

A reportagem procurou a Prefeitura de Santo Antônio do Descoberto e o Governo de Goiás para obter informações sobre políticas públicas destinadas à comunidade quilombola. Até a publicação desta matéria, porém, não houve retorno.

Frase-Chave: Comunidade quilombola.

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