O Preço da Ilusão Estética: Os Perigos Ocultos e Silenciosos dos Anabolizantes
A busca pelo corpo perfeito, muitas vezes motivada pela pressa e pelo impacto das redes sociais, tem levado cada vez mais pessoas saudáveis a usar Esteroides Anabolizantes Androgênicos sem nenhuma necessidade médica. Embora os músculos cresçam rápido no espelho, essas substâncias causam estragos dentro do organismo que avançam de forma escondida, rápida e grave.
Para entender os perigos reais que o uso desses hormônios traz para a circulação, para os órgãos e para a mente, conversamos com a médica endocrinologista Dra. Adriana Garcia Gabas Migliolli.

Formada em Medicina pela Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS) em 1998, com residência em Clínica Médica concluída em 1999 e especialização em Endocrinologia e Metabologia pela Faculdade de Medicina de Marília (FAMEMA) em 2001, a especialista atende em seu consultório particular desde 2001, ano em que também recebeu seu Título de Especialista pela Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM). A médica também já foi professora de endocrinologia na faculdade de medicina da Uniderp entre 2008 e 2010 e trabalhou como voluntária no ambulatório neuroendócrino da Unifesp entre 2019 e 2020.
Sangue Grosso e Risco de Derrame (AVC)
Do ponto de vista hormonal e metabólico, a introdução dessas doses na rotina desequilibra todo o funcionamento de um organismo saudável. A Dra. Adriana Migliolli explica que os hormônios masculinos têm a função natural de estimular a produção de hemácias, que são os glóbulos vermelhos do sangue. No entanto, nas quantidades exageradas usadas para ganhar músculos, essa produção sai totalmente do controle.
“A diferença entre a reposição hormonal e a dose de anabolizante é que a reposição é feita em uma dosagem bem mais baixa, apenas para corrigir uma falta no corpo”, esclarece a médica. Ela pontua que o uso estético deixa o sangue muito grosso e pesado, o que eleva a pressão nas artérias e faz o risco de um Acidente Vascular Cerebral (AVC), o famoso derrame, disparar.
Agressão ao Coração e ao Fígado
Esses estragos começam cedo e pioram com o tempo, agredindo órgãos vitais para a nossa sobrevivência como o coração e o fígado. A endocrinologista detalha que, logo no início do uso, o coração sofre uma hipertrofia, ou seja, o músculo cardíaco cresce de forma errada e fica duro, com dificuldade para bombear o sangue.
Ao mesmo tempo, o fígado sofre uma agressão direta que se nota pelo aumento das enzimas hepáticas nos exames e pelo acúmulo de gordura, a chamada esteatose hepática. Se a pessoa insistir no erro, os danos viram doenças crônicas que não têm cura. “A longo prazo, os danos podem progredir para insuficiência cardíaca e cirrose”, alerta a especialista, mostrando que o coração perde a força e o fígado começa a cicatrizar e morrer, parando de funcionar.
O Mito da “Dose Segura” e da TPC
Muitos jovens ainda acreditam no boato de que fazer uma Terapia Pós-Ciclo (TPC) ou ter o acompanhamento de alguém para fins estéticos corta os riscos dos hormônios, mas a medicina prova que isso é uma ilusão. A Dra. Adriana deixa claro que as doses seguras e corretas de reposição por deficiência hormonal trazem melhora na saúde do coração e do metabolismo apenas de quem realmente precisa do hormônio, mas não fazem o músculo crescer de forma exagerada.
“Mas se passar da dose, vira veneno”, adverte a médica, explicando que o mesmo hormônio que ajudaria a melhorar o fôlego e a saúde de um paciente doente vai virar um causador de infartos, pressão alta e diabetes se for tomado em doses de anabolizante.
Impactos no Sistema Nervoso Central e na Saúde Mental
Os impactos também mexem profundamente com o sistema nervoso e com a saúde mental, pois usar hormônios além do limite do corpo provoca uma grande retenção de líquidos que acontece inclusive dentro do crânio, gerando um leve edema cerebral.
De acordo com a Dra. Adriana, esse inchaço altera diretamente o comportamento, “causando irritabilidade e distúrbios psiquiátricos genéticos que poderiam não se manifestar” se a pessoa ficasse longe dessas substâncias. O abuso funciona como um gatilho para problemas como ansiedade, depressão ou outras condições que a pessoa já tinha tendência familiar a desenvolver.
Além disso, o corpo trabalha em uma balança e, ao perceber que tem muito hormônio artificial entrando, o cérebro manda as nossas glândulas pararem a produção natural. Isso faz com que as nossas fábricas naturais murchem por falta de uso, causando a atrofia dos testículos no caso dos homens, além de prejudicar a hipófise e as glândulas adrenais.
O Caminho Seguro Segundo a Endocrinologia
Para quem quer mudar o corpo, ganhar massa magra e ter disposição sem colocar a vida em risco, a Endocrinologia recomenda apenas o caminho seguro e comprovado pela ciência. O primeiro passo apontado pela Dra. Adriana é passar por uma consulta com o endocrinologista para checar a saúde real e avaliar o metabolismo com exames detalhados de sangue e de urina.
Na alimentação, a orientação é manter uma dieta planejada que ofereça entre 1,6 gramas e 2,0 gramas de proteína por dia para cada quilo do corpo do indivíduo. No treino, a recomendação consiste em praticar musculação com o acompanhamento de profissionais da educação física até seis vezes por semana, garantindo obrigatoriamente uma janela de 24 horas de descanso na semana, ou seja, um dia de repouso absoluto.
Por fim, a médica destaca a importância de dormir bem, garantindo de seis a oito horas por dia. Ela lembra que “o sono produz GH, hormônio reparador de tecidos”, que ajuda os músculos a se recuperarem. A saúde e um corpo bonito se constroem com paciência, treino correto, descanso e comida boa, e não com atalhos químicos que podem custar a sua própria vida.












